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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O que é o amor?


A palavra amor é uma das mais desgastadas da história, mais desvalorizadas, adulte­radas e, contudo, continua sendo a pa­lavra fundante mais importante do ser humano."Amor" remete-nos para energia, atitu­de, sentimentos positivos, proximidade, solidariedade, compaixão, empatia, ami­zade.O amor, em nós, é um dom e uma tarefa. Como dom é fruto da árvore da vida que cresce na nossa natureza como possibi­lidade que quer ser actualizada. A maçã é a linguagem amorosa da macieira. Como tarefa, o amor é aprendizagem, mimetismo, interiorização, maturação e crescimento. A arte de amar é o culmi­nar de um processo que flui dando à pessoa uma das características mais es­senciais da sua maturidade.O amor tem diversas dimensões, distin­tos cumprimentos de onda, dependen­do das situações ou da relação interpessoal.Dinamiza uma energia amistosa ou empática ou erótica. A escolha destes dinamismos depende da liberdade situa­da e relacional, da lucidez do coração e, em certas ocasiões, da resposta do outro.Falando estritamente, o amor não se pode medir: o "mais que ontem, me­nos que amanhã" ou "amo-te mais a ti do que a mim", não deixam de ser frases nas quais algo se pode intuir e sentir mas não avaliar rigorosamente.O amor está feito de três ingredientes: solicitude, afecto, intimidade.A solicitude supõe atenção eficaz ao outro nas suas necessidades e desejos. Tomar o outro a meu cargo, escutá-lo, respeitá-lo, ajudá-lo.O afecto junta algo mais; não só dou algo a alguém mas quero estar com ele, jun­to a ele, junto a ela. O afecto é essa atmosfera agradavelmente calorosa e magneticamente atractiva que nos leva a partilhar tempo, proximidade física, sintonia pessoal e emocional com o ou­tro.A intimidade consiste em comunicar-me com o outro. À proximidade física, ao contacto afectuoso, junta-se aqui a pa­lavra que me autoexpressa e a escuta que permite ao outro revelar-se-me. A intimidade é a ponte que, verbal­mente ou não, nos aproxima do outro e nos permite a maravilha do encontro e o conhecimento mútuo.A relação destas dimensões do amor de­pende do estilo de amar e da situação pessoal face ao outro.Fomos educados para a solicitude; me­nos para o afecto; muito pouco para a intimidade. Até mesmo a própria palavra intimidade foi reduzida a uma dimensão física do amor em casal. Saber harmoni­zar solicitude, afecto e intimidade su­põe amar a partir de todo o ser; não com um gesto voluntarista, nem com uma dimensão puramente cognitiva, nem tão pouco com uma exaltação dos sentidos ou das emoções.O equilíbrio entre estas três dimensões supõe um amor lúcido, uma inteligência do coração que, em certas ocasiões, não tem quase nada a ver com o enamoramento.O amor é sempre um eu-tu. Amar é tirar o outro do anonimato, dar-lhe um rosto e um nome.Pensamos que nascemos, ainda que nem sempre seja assim, como fruto de uma decisão amorosa. Esperamos que o amor passe pelas nossas vidas despertando energia, ilusão, motivação, encontro. O amor é o primeiro que se sente presen­te ou ausente e o único que é mais for­te que a morte. O amor, com a sua pos­sibilidade de desamor, é a experiência que dá sol à vida e sabor à existência. O amor torna aquele que ama paciente e amável. Aquele que ama não busca o seu próprio interesse, ainda que, eviden­temente, possa expressá-lo ao outro. Se se irrita, é capaz de perdão e reconcili­ação, não se instala nas ofensas, mas ale­gra-se na verdade, com a justiça, com o respeito e a liberdade do outro. Este amor pode parecer utópico mas essa utopia faz-nos caminhar numa direcção decidida pelos nossos corações. O amor, apesar de tudo, corre pelas vei­as da vida, por isso é capaz de dar vida. Dizer: "Eu amo" ou "Eu amo-te", supõe uma maturidade que não se improvisa. Para que um homem ou uma mulher pos­sam verdadeira e eficazmente pronunci­ar a palavra amor, tiveram que crescer lenta e cuidadosamente, autocom­preender-se, centrar-se e descentrar­-se, experimentar uma libertação e uma capacidade de criar para que o amor não seja uma palavra vazia, mas densa, viva e vinculante.Para dizer: "Eu amo" é necessário uma infraestrutura psíquica e pessoal que su­põe ter recebido amor. Não qualquer for­ma e tipo de amor, mas um amor incondi­cional. Este tipo de amor não está vincu­lado a condições de mérito ou esforço, mas começa e acaba na pessoa, por ser ela mesma, por existir tal como é.O amor, se se quer construir sobre ele um projecto de vida, tem que ser madu­ro e sólido, consciente e fiel. Construir um projecto amoroso não é puro enamoramento, alvoroço de sentidos ou emoções desordenadas.Se a paixão surge no enamoramento, o amor fá-lo amadurecer e torna-o quoti­diano, numa coerência fiel e crescente.O amor ama o outro como distinto, como livre, como a alguém que ao dizer-se, desperta em mim a vontade de abraçá­-lo, acolhê-lo, escutá-lo e alegrar-me com ele. Não basta amar muito mas é necessário amar bem, amar com lucidez e percep­ção da realidade que queremos acompa­nhar e transformar com respeito. Amar é deixar o outro ser ele mesmo, ela mesma, sabendo que só assim a au­tenticidade do amor se verifica na histó­ria relacional das pessoas.O amor, sendo a energia mais poderosa do homem, necessita também de uma infraestrutura social que lhe permite fa­zer-se história e visualizar-se na história humana.Amar adultamente supõe, na maioria dos casos, um trabalho, uma casa, uma ali­mentação assegurada. Quer dizer, ter sa­tisfeitas as mais primárias necessidades para que, livres delas, possamos dar a nossa palavra ao outro e constituí-lo em alguém amável e amado.Como escreve um grande poeta mís­tico, João da Cruz: "Ao entardecer da vida serás julgado pelo amor". Esta disci­plina pendente não implica o penoso dever de estudá-lo, mas o gozoso ou tra­balhoso desejo de cultivá-lo. O fruto nascerá como dom da terra humana des­se cultivo, ultrapassando-o nas suas pos­sibilidades e limites. Amar-se é amar, é possibilitar o crescimento maduro de uma capacidade que, se é autêntica, será sempre fecunda e libertará a vida no outro. Estas considerações sobre o amor não devem desanimar-nos se a nossa experi­ência deixa o amargo de uma certa soli­dão ou isolamento, de uma experiência de desamor. Talvez o amor tenha passa­do por nós com uma linguagem diferen­te da que esperávamos escutar ou, mais dolorosamente, não tenha passado, ape­sar de ainda a sua semente estar no meu coração. Talvez decidir-se a amar seja decidir-se a viver sem esperar resposta, já que o amor não se paga com amor, dá­-se e acolhe-se, oferece-se.

José António Garcia Monge, in "Trinta Palavras para la madurez"