
A palavra amor é uma das mais desgastadas da história, mais desvalorizadas, adulteradas e, contudo, continua sendo a palavra fundante mais importante do ser humano."Amor" remete-nos para energia, atitude, sentimentos positivos, proximidade, solidariedade, compaixão, empatia, amizade.O amor, em nós, é um dom e uma tarefa. Como dom é fruto da árvore da vida que cresce na nossa natureza como possibilidade que quer ser actualizada. A maçã é a linguagem amorosa da macieira. Como tarefa, o amor é aprendizagem, mimetismo, interiorização, maturação e crescimento. A arte de amar é o culminar de um processo que flui dando à pessoa uma das características mais essenciais da sua maturidade.O amor tem diversas dimensões, distintos cumprimentos de onda, dependendo das situações ou da relação interpessoal.Dinamiza uma energia amistosa ou empática ou erótica. A escolha destes dinamismos depende da liberdade situada e relacional, da lucidez do coração e, em certas ocasiões, da resposta do outro.Falando estritamente, o amor não se pode medir: o "mais que ontem, menos que amanhã" ou "amo-te mais a ti do que a mim", não deixam de ser frases nas quais algo se pode intuir e sentir mas não avaliar rigorosamente.O amor está feito de três ingredientes: solicitude, afecto, intimidade.A solicitude supõe atenção eficaz ao outro nas suas necessidades e desejos. Tomar o outro a meu cargo, escutá-lo, respeitá-lo, ajudá-lo.O afecto junta algo mais; não só dou algo a alguém mas quero estar com ele, junto a ele, junto a ela. O afecto é essa atmosfera agradavelmente calorosa e magneticamente atractiva que nos leva a partilhar tempo, proximidade física, sintonia pessoal e emocional com o outro.A intimidade consiste em comunicar-me com o outro. À proximidade física, ao contacto afectuoso, junta-se aqui a palavra que me autoexpressa e a escuta que permite ao outro revelar-se-me. A intimidade é a ponte que, verbalmente ou não, nos aproxima do outro e nos permite a maravilha do encontro e o conhecimento mútuo.A relação destas dimensões do amor depende do estilo de amar e da situação pessoal face ao outro.Fomos educados para a solicitude; menos para o afecto; muito pouco para a intimidade. Até mesmo a própria palavra intimidade foi reduzida a uma dimensão física do amor em casal. Saber harmonizar solicitude, afecto e intimidade supõe amar a partir de todo o ser; não com um gesto voluntarista, nem com uma dimensão puramente cognitiva, nem tão pouco com uma exaltação dos sentidos ou das emoções.O equilíbrio entre estas três dimensões supõe um amor lúcido, uma inteligência do coração que, em certas ocasiões, não tem quase nada a ver com o enamoramento.O amor é sempre um eu-tu. Amar é tirar o outro do anonimato, dar-lhe um rosto e um nome.Pensamos que nascemos, ainda que nem sempre seja assim, como fruto de uma decisão amorosa. Esperamos que o amor passe pelas nossas vidas despertando energia, ilusão, motivação, encontro. O amor é o primeiro que se sente presente ou ausente e o único que é mais forte que a morte. O amor, com a sua possibilidade de desamor, é a experiência que dá sol à vida e sabor à existência. O amor torna aquele que ama paciente e amável. Aquele que ama não busca o seu próprio interesse, ainda que, evidentemente, possa expressá-lo ao outro. Se se irrita, é capaz de perdão e reconciliação, não se instala nas ofensas, mas alegra-se na verdade, com a justiça, com o respeito e a liberdade do outro. Este amor pode parecer utópico mas essa utopia faz-nos caminhar numa direcção decidida pelos nossos corações. O amor, apesar de tudo, corre pelas veias da vida, por isso é capaz de dar vida. Dizer: "Eu amo" ou "Eu amo-te", supõe uma maturidade que não se improvisa. Para que um homem ou uma mulher possam verdadeira e eficazmente pronunciar a palavra amor, tiveram que crescer lenta e cuidadosamente, autocompreender-se, centrar-se e descentrar-se, experimentar uma libertação e uma capacidade de criar para que o amor não seja uma palavra vazia, mas densa, viva e vinculante.Para dizer: "Eu amo" é necessário uma infraestrutura psíquica e pessoal que supõe ter recebido amor. Não qualquer forma e tipo de amor, mas um amor incondicional. Este tipo de amor não está vinculado a condições de mérito ou esforço, mas começa e acaba na pessoa, por ser ela mesma, por existir tal como é.O amor, se se quer construir sobre ele um projecto de vida, tem que ser maduro e sólido, consciente e fiel. Construir um projecto amoroso não é puro enamoramento, alvoroço de sentidos ou emoções desordenadas.Se a paixão surge no enamoramento, o amor fá-lo amadurecer e torna-o quotidiano, numa coerência fiel e crescente.O amor ama o outro como distinto, como livre, como a alguém que ao dizer-se, desperta em mim a vontade de abraçá-lo, acolhê-lo, escutá-lo e alegrar-me com ele. Não basta amar muito mas é necessário amar bem, amar com lucidez e percepção da realidade que queremos acompanhar e transformar com respeito. Amar é deixar o outro ser ele mesmo, ela mesma, sabendo que só assim a autenticidade do amor se verifica na história relacional das pessoas.O amor, sendo a energia mais poderosa do homem, necessita também de uma infraestrutura social que lhe permite fazer-se história e visualizar-se na história humana.Amar adultamente supõe, na maioria dos casos, um trabalho, uma casa, uma alimentação assegurada. Quer dizer, ter satisfeitas as mais primárias necessidades para que, livres delas, possamos dar a nossa palavra ao outro e constituí-lo em alguém amável e amado.Como escreve um grande poeta místico, João da Cruz: "Ao entardecer da vida serás julgado pelo amor". Esta disciplina pendente não implica o penoso dever de estudá-lo, mas o gozoso ou trabalhoso desejo de cultivá-lo. O fruto nascerá como dom da terra humana desse cultivo, ultrapassando-o nas suas possibilidades e limites. Amar-se é amar, é possibilitar o crescimento maduro de uma capacidade que, se é autêntica, será sempre fecunda e libertará a vida no outro. Estas considerações sobre o amor não devem desanimar-nos se a nossa experiência deixa o amargo de uma certa solidão ou isolamento, de uma experiência de desamor. Talvez o amor tenha passado por nós com uma linguagem diferente da que esperávamos escutar ou, mais dolorosamente, não tenha passado, apesar de ainda a sua semente estar no meu coração. Talvez decidir-se a amar seja decidir-se a viver sem esperar resposta, já que o amor não se paga com amor, dá-se e acolhe-se, oferece-se.
José António Garcia Monge, in "Trinta Palavras para la madurez"
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
O que é o amor?
Publicada por Catarina à(s) 00:50
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